terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pessoas Invisíveis


Em minha continuas buscas por documentários, assisti recentemente, ONIBUS 174, que fora lançado em 2002, com a direção do hoje reconhecido diretor José Padilha, que relata de forma espetacular o seqüestro que foi acompanhado ao vivo por quase 4h por emissoras de todo o pais e que infelizmente não acabou com o mocinho do bem salvando a todos sem maiores danos.
Após o trágico final do seqüestro em 12 de junho de 2000,Padilha mergulha  verticalmente na estória cruel e dolorosa de Sandro Barbosa do Nascimento e cumpre com maestria o papel que todo documentário deveria fazer, nos trazer a observação, reflexão  e análise profunda de um determinado assunto
Por traz de todo o fardo de monstro assassino que a mídia estampou na capa dos jornais, apoiada pela sociedade, o diretor faz a reconstrução de toda sua vida, da sua infância até o momento do seqüestro,  através do ponto de vista do vilão, das pessoas que conviveram, da polícia, da imprensa, das vítimas, do governo e da opinião pública;  Surpreendentemente nos apresenta a uma verdade que causa incomodo a todos os cidadãos que convivem pacificamente com a realidade distorcida do nosso país.
Impossível imaginar algum final feliz para uma pessoa que foi castigada pela sociedade, desde os primeiros anos de vida. A morte foi apresentada a Sandro desde cedo, quando foi a única testemunha do assassinato de sua mãe. Anos depois,tomado por questionamentos de criança,  não consegue aceitar que sua tia substitua sua mãe e foge para a rua aos 10 anos, aonde forma a família Candelária junto de aproximadamente outras 70 crianças de rua.
Em julho de 1993, mais uma vez assiste a morte violenta de alguem do seu vinculo afetivo, na conhecida Chacina da Candelária.  A hipótese mais aceita, afirma que policiais fariam parte de um grupo de extermínio contratado para realizar a "limpeza" do centro histórico do Rio de Janeiro, assassinando brutalmente crianças que dormiam debaixo de uma marquise.
Toda uma vida de um garoto invisível marcada por tragédia, prisões e portas fechadas eclode aos olhos do país como uma resposta natural a indiferença cultivada diariamente nesse país.  É impressionante o poder de "Ônibus 174". Tristeza, espanto, vergonha, revolta são alguns dos sentimentos que o filme desperta em cada um de nós. O mais importante é que ele nos faz lembrar que, embora a gente não queira enxergar, há milhares de pessoas querendo deixar de ser invisíveis, querendo ser tratadas como pessoas ao invés de problemas. E que ignorá-los é o pior caminho.
Muitos culpam a rua, o álcool, a droga e se preocupam rapidamente em saber ou apontar onde estão as maquinas de fazer vilão, em mais um gesto egoísta de alguém que pensa unicamente na sua defesa, ou na defesa de seus patrimônios, exigindo da sociedade o extermínio dessas pessoas. Poucos tentam entender e ajudar aos milhares de Sandros jogados na rua de nosso pais, querendo uma oportunidade para tentar contrariar as estatísticas que os apontam como criminosos e assassinos em potencial .
Depois de negociações comandadas por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Sandro deixou o ônibus com um revólver calibre 38 apontado para a cabeça da professora Geisa Gonçalves. Como já é de conhecimento de todos,  um soldado do Bope tentou balear o seqüestrador, que reagiu, matando a professora.
A multidão de curiosos avança na direção do seqüestrador com a intenção de linchá-lo. Com dificuldade, a polícia coloca Sandro em um camburão, onde ele é asfixiado e morre aos olhos do pais inteiro, que aplaude a sua morte, como um troféu ou vitória de uma guerra alimentada pela indiferença.  Uma guerra onde os inimigos são criados por uma sociedade egoísta, em um país que irá investir milhões de reais na construção de estádios para a próxima copa do mundo, ao invés de cuidar de seus filhos, dando condições para uma vida melhor e principalmente educação, que é a chave para evolução e amadurecimento de um país.
Encarar a expressão dos olhos de um homem ou garoto de rua, nos apresenta a imensidão do nosso vazio em SER humano.
É como se esse olhar escancarasse ao mundo o nosso Ego e a nossa vontade maior de TER, ao mesmo tempo em que somos  apresentando a um dialogo com os nossos instintos humanos mais primitivos, no qual, sabemos que deveríamos  ser mais humanos e menos individualistas. Apressa- se em desviar o olhar, como se, com esse gesto fosse possível jogar essas falhas para baixo de toda maquiagem que utilizamos para nos enquadrar em uma sociedade doente.  
Assim  como Sandro, asfixiamos diariamente milhares de vidas com a nossa indiferença, imparcialidade e passividade; Simplesmente aceitamos, ou muitas vezes fingimos que os problemas não são nossos e sim dos nosso governos.
Se vivemos em uma democracia ( do grego DEMO= povo ; CRACIA=governo), Quem são os responsáveis pela criação dos inimigos da nossa guerra social?  Pense nisso.

Para aqueles que não querem ler o texto inteiro, apenas assista ao clipe abaixo, o recado esta dado da mesma forma, ou talvez melhor.

Letra logo abaixo do video.



Munição na Mamadeira
Composição: Keops e Raony

Vai, bota a fralda, a farda
Que a cegonha vem te despachar
Vai, não chora que a mãe que reza a prece
Tem pressa de apressar a volta

Mas é tarde, engatilha a chupeta
Bebês de proveta formam o batalhão
Vira a cara, dispara nos campos de batalha
Bonecos de comando em ação
Pela razão alheia pisa em castelos de areia
Interrompe a construção
Urubus agora cercam os filhotes do mundo cão

Rifle de madeira, parece brincadeira,
Munição na mamadeira, mas...
Quem tem medo do lobo mau?
Quem tem medo do lobo mau?
A fralda camuflada, garotos de Columbine
Pivetes do Comando e aprendizes da Al-Qaeda
Quem tem medo do lobo mau?

Batuques me revelam
E escondem o medo
Cego procuro a esperança
Que guardo em segredo

Comboios, escombros
Desorientados nos morros,
No Oriente, no ocidente, acidente
Os heróis que trocam de pentes
Antes de trocar os dentes

E o fogo amigo que cava o jazigo
De menos de um metro e meio
Calibre no berço
Cobre com manto preto
O menino que não tem medo de careta
A cara amarrada se esconde
Atrás da camisa amarrada na cara
E agora é brincadeira de criança
Matar por vingança

Rifle de madeira, parece brincadeira,
Munição na mamadeira, mas...
Quem tem medo do lobo mau?
Quem tem medo do lobo mau?